Esta é uma crítica pessoal e não contém spoilers

Quando a Netflix anunciou há mais de um ano que a webserie 3 por cento iria virar uma produção exclusiva do mundialmente renomado serviço de streaming muitos de nós ficaram afoitos. Afinal, a primeira série brasileira da Netflix poderia ser assistida em mais de 190 países e iria dar um incrível ânimo para que mais produções nacionais fossem valorizadas. E eis que todo esse tempo passou e agora vocês devem estar se perguntando: vale a pena assistir à 3%?

O Processo é justo. O Processo é incorruptível.

Antes de responder a pergunta em definitivo, é melhor dar uma breve explicação sobre a premissa da série. Claro, sem spoilers.

Na série, o mundo está sofrendo absurdamente com mudanças climáticas. A Amazônia agora é um deserto e recursos naturais básicos como água e comida são escassos. Do lado de cá (o continente) as pessoas são pobres e sobrevivem na miséria em situações deploráveis de pobreza. Do lado de lá (a ilha Maralto) vivem aqueles que provam para si mesmos que merecem estar ali através de um sistema de seleção conhecido como O Processo.

O Processo seleciona os 3% que merecem.

Aos 20 anos de idade, todos tem a chance de participar do Processo. Entretanto, apenas 3% de todos os competidores poderão chegar ao Maralto e desfrutar de uma vida melhor. Durante a seleção, a verdadeira identidade de muitos candidatos acaba se revelando e também seus motivos pessoais de estarem ali. Alguns por mérito, outros por achar que são melhores, outros para acabar com o sistema.

No continente, um movimento contrário ao Processo está crescendo: a Causa. Ela ameaça silenciosamente acabar com uma seleção que julgam injusta. Para eles todos deveriam ter os mesmos direitos, não apenas os 3%.

A igualdade é uma ilusão convincente.

Questões como igualdade social, direito e privilégios estão evidenciadas em todos os momentos dos oito episódios da série. É realmente justo que apenas 3% da população passe para o lado de lá baseada em testes físicos e psicológicos que podem não ser a melhor alternativa para cada indivíduo? Quem garante que o processo seleciona as pessoas que merecem? Aqueles que utilizam de artifícios considerados injustos para vencer uma prova tem o direito de chegar ao Maralto? Não passar em uma prova significa que a pessoa não mereça estar entre os 3%?

Tais perguntas ficam plantadas em nossa mente após o fim da temporada. Afinal, o Processo é justo?

Os erros e os acertos de 3%

Como falamos, qualquer série produzida tem seus altos e baixos, e com 3% não seria diferente. Justificar os erros da primeira temporada por ser a primeira série brasileira da Netflix é ilógico. É dizer que não temos pessoal competente para realizar uma boa série em nosso país. E não é isso o que estamos dizendo. O Brasil está começando a se reerguer no cenário cinematográfico após décadas estagnado em produções de baixo orçamento, semelhantes e tediosas. Críticas sociais continuam sendo um forte artifício para o desenvolvimento das histórias e isso é extremamente válido.

O desenvolvimento dos personagens é notável. Cada um possui um passado curioso que os motivam seguir em frente e acreditar que podem fazer parte dos 3%. Nem todos poderão se conectar com o espectador a ponto de se emocionar com o destino final do protagonista. E isso não é um erro dos atores, que são muito bons, mas sim de seus textos relativamente rasos. Nem todos carecem desse problema, mas é uma questão que poderia ser melhorada. E esperamos que seja na segunda temporada da série.

Você é o criador do seu próprio mérito.

Existem frases robóticas em certos momentos que te faz imaginar o porquê não refizeram aquela cena. Até mesmo para uma sociedade futurista, tais colocações soariam estranhas quando faladas. Isso não vai te fazer desistir da série, mas certamente vai retirar aquele momento de “isso poderia estar acontecendo de verdade”.

A fotografia da série é diferente. Num primeiro momento eu fiquei ligeiramente incomodado com o jeito que a câmera se move ao redor do cenário e também de seus ângulos pouco convencionais, mas acabei passando a gostar com o passar do tempo e passei a achar bonita, mesmo acreditando que poderia ter sido algo melhor.

Vai dar tudo certo porque você merece.

A trilha sonora é boa. A escolha dos instrumentos mais brasileiros deixam claro para todo o mundo que esta série tem um ar especial e diferente. Para quem assistiu à abertura e não gostou, é provável que vá cantar junto após alguns episódios. Um ponto curioso dela é que conforme os episódios vão passando, você consegue identificar as referências que estão ali.

O figurino e as locações são excelentes. De extrema qualidade e com uma pegada futurista quando é mostrado o local em que são realizadas as provas e as pessoas do lado de lá, e também que mostram a pobreza e miséria do povo do lado de cá. Existe uma tela gigante em especial que fiquei babando sempre que ela aparecia. É uma peça com design simples que todos iriam querer em casa. Quando você assistir, vai saber do quê estou falando.

Esta é a sua hora.

A reviravolta nos episódios finais não é muito esperada. Já que não posso falar muito, o que posso dizer é que fiquei positivamente surpreso com o final, que me deixou na expectativa de uma segunda temporada o quanto antes.

Sou fã de ficções científicas, e 3% faz jus ao gênero incrível que é o sci-fi. A divisão das classes sociais me lembra um pouco Elysium, onde os mais privilegiados vivem na estação espacial de mesmo nome e os mais pobres permanecem na pobreza da Terra. A premissa é diferente na série, onde existe o Processo para que eles ascendam socialmente, já em Elysium os bens passam dos pais para os filhos, permanecendo sempre na mesma classe social.

A série é ótima para fazer maratona com os amigos, já que são apenas oito episódios e vocês pode terminar facilmente em um dia de feriado ou fim de semana, pausando entre os episódios para fazer mais pipoca, pegar refrigerante ou trazer para perto o pote de sorvete.

Nós estávamos esperando por você.

Veredito

3% é ótima. Mostra o futuro que tanto tememos: escassez de água, comida e energia. Com uma sociedade dividida entre uma classe elitizada e extremamente pequena que pode desfrutar de quase todos os recursos que quiserem e uma maioria absurda de pessoas que vivem na extrema miséria, sem qualidade básica de vida como água, saneamento básico, saúde e alimentos.

Marcada como a primeira série brasileira produzida pela Netflix, 3% entra para a história não apenas por ser diferente do que estamos acostumados a ver em produções nacionais, mas por mostrar ao povo brasileiro o que está por vir.

É certo que esperamos uma segunda temporada mais densa e com diálogos mais bem elaborados, além de uma melhora substancial nos efeitos especiais, mas 3% é uma série que pode mudar o cenário cinematográfico brasileiro. Vamos colher os frutos dela daqui a alguns anos, e então poderemos saber que 3% deu certo ou não. Mas isso é em longo prazo. Em curto prazo podemos dizer que a série tem potencial para revolucionar as produções nacionais, e aguardamos ansiosamente para que isso se concretize!

Assista 3%, vale a pena!

 

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'3%' é uma série sobre meritocracia, justiça e o Brasil
O ProcessoFinal inesperadoReviravoltas interessantesUso da tecnologia
Efeitos especiais muito fracosFrases de efeitos robóticasPoucos personagens fortes
7.1Pontuação geral
Enredo6.5
Fotografia7
Trilha sonora8
Personagens7
Atuações6
Efeitos especiais5.5
Maquiagem e figurino8
Ambientação8.5
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